SOBRE MIM

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Não é que tudo tenha começado por aqui, pela história que eu vou contar, nem que eu seja somente isso. Muitas vezes me apresento por outras perspectivas e em cada uma delas, sou. Neste momento, quero me apresentar pelo caminho da cura, ou da doença, que me guiou no encontro com as minhas feminilidades – o centro feminino em mim.

Foi somente depois de sentir muitas dores na coluna (lombar, sacro e cóccix), e não encontrar nenhum diagnóstico que justificasse tamanho desconforto, que eu descobri que as dores estavam associadas à minha pélvis (pólipos, endometriose e adenomiose). No começo, eu queria acabar com aquela dor violenta e continuar a vida.

E essa atitude era mais uma re-ação treinada desde a infância para que  eu não entrasse em contato com a ferida. A médica me disse: “Você já teve filhos?” “Não”. “Humm e você quer tê-los? Porque o tratamento neste momento é suspender sua menstruação. Como uma menopausa antecipada”. Essas foram mais ou menos as palavras que eu lembro. Lembro que ela foi muito doce, mas a voz dela foi ficando cada fez mais longe... “Cirurgia”... “Laparoscopia”... “Exames de sangue”... “Ressonância”... “Ecografia profunda”... E pela primeira vez eu disse: não!  Eu não tinha condições de decidir nada, eu nem estava mais naquele consultório.

Eu tinha o hábito, até aquele momento, de sempre deixar a decisão para o médico: “Ele estudou e ele sabe o que é melhor para mim”.  Naquele dia foi diferente: eu decidi que eu queria um tempo para mim mesma. Eu vi claramente que a explicação que ela me dava fisiologicamente para aquele diagnóstico tinha sintonia e justificativa com meus hábitos de vida. Ela disse: “como uma contração da parede uterina”, “como um derramamento do sangue menstrual fora do útero”, “como uma feridinha na parede do útero:" ... e tudo isso, era eu!

Comecei um tratamento através da escuta do meu corpo. Utilizando algumas técnicas terapêuticas que eu conhecia e outras, que fui descobrindo durante o percurso. Comecei por ouvir minha bacia, o centro da dor, o meu grande caldeirão feminino onde mora o meu útero, meus ovários e minha vagina. Este caminho de olhar para dentro, através da dor nas costas e da endometriose, me guiou até o lugar onde morava o medo que eu tinha de ser, de me empoderar como mulher e de ser relaxada na minha pélvis. O medo era um sentimento que guiava meu corpo para se contrair, segurar e esconder. E até então, esse tinha sido o padrão psicossomático mais protetor e cuidadoso que eu havia encontrado “inconscientemente” para me defender de abusos e torturas. Isso era o que meu corpo conhecia. E isso é o que chamamos em Core Energetics de couraça e defesa. A proteção tinha se apertado tanto que havia se tornado uma ferida. Agora exposta, eu a estava percebendo e sentindo.

Olhar e viver essa jornada me ensina o caminho da autoria e do autêntico poder pessoal. Vi de frente o medo que eu tinha de me responsabilizar, de ser espontânea e criadora da minha vida. Quando eu cruzei a barreira do medo, da contração e da dor, eu pude estar no meu mundo interior, e aí neste lugar, eu encontrei um feminino que eu desconhecia. Eu pensei: “uau... viver a partir disso assustou aquela criança que eu era, assustou minha mãe e todos os cuidadores ao redor”. Minha própria mãe herdou da minha avó um feminino assustado e submisso. Eu me perguntei se eu podia, agora, não me assustar e pegar nas mãos dessa criança, e ainda, lidar com toda aquela história, sentimento, dor física... seja lá como a energia se manifestasse.

Ao conhecer essa parte do meu corpo, uma mulher nasceu! Eu senti que eu pude nascer do meu próprio útero, do descongelamento do meu profundo centro. Nutri-lo foi o resultado da gestação desse trabalho. Até então, eu queria muito ter um filho, alias, mais que isso, eu queria gestar. Eu não sabia, mas o que eu queria é fazer meu centro desperto, vivo! Eu queria deixar a minha terra interna (parede uterina) macia para receber o toque do espírito, e então, gestar, dar luz à minha própria criar-ação!

Eu silenciei meu útero durante anos. Eu abandonei minha pélvis. Eu fiz isso inconscientemente e tive uma vida “normal”: odiando a menstruação, as dores e as tensões que elas me traziam. Quanto mais eu odiava tudo aquilo, mais intenso e vivo meu sangue descia, mais dores eu sentia, mais remédios eu tomava, mais processos para limpá-la e escondê-la, eu usava: absorventes internos, remédios para diminuir ou cessar o sangue. Eu inclusive já desejei uma menopausa antecipada para me livrar daquela bruxa vermelha! Eu não sabia que tudo aquilo me deixava com uma sensação de ser menos mulher. Eu tinha problemas severos de baixa estima, e eu nem imaginava que tudo aquilo estava conectado: minha autoimagem, autoestima, autocuidado, autorespeito, com a minha condição de me reconhecer mulher a partir do meu core, do meu centro, do meu ser.

Cuidando da minha pélvis, pela primeira vez, eu pude amá-la, e eu pude encontrar as reais emoções que estavam gritando esquecidas internamente dentro de mim. Eu pude ouvir as minhas reais necessidades e encorajar-me a alcança-las. Só assim eu fui me dando conta do que era descobrir o feminino que mora dentro de mim.

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